A ANTROPOFAGIA NO TEXTO ARTÍSTICO:
AS ALEGORIAS DO ESTRANHO EM "A PAIXÃO SEGUNDO G.H."
Lívia Maria Natália de Souza - UFBA
Sonho e perco-me, duplo de ser eu e esta mulher...Um grande cansaço é um fogo negro que me consome...Uma grande ânsia passiva é a vida que me estreita
Na Floresta do Alheamento, Fernando Pessoa.
A pesquisa aqui apresentada sofreu, no último mês, mudançassubstanciais naquilo que diz respeito a seus rumos. Aproveitando-me do longo alcance do conceito de Antropofagia, trago uma leitura que transita entra a Teoria da Literatura e a Psicanálise. Centrando-me no Romance “A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector, venho resgatar alguns pontos de diálogo entre este e outros textos. A Antropofagia que aqui registro é a ocorrida nas intrincadas malhas textuais.
As resoluções para o redirecionamento do trabalho implicam em retomadas e reconsiderações de conceitos: primeiramente, restringimos o estudo ao livro " A Paixão Segundo G.H." , além disto estudaremos o texto " O Estranho " de Sigmund Freud e utilizaremos como arcabouço teórico os conceitos de alegoria, metáfora e metonímia além de outros instrumentais para a análise.
O texto artístico, em sua construção, sofre a influência e a interferência de leituras anteriores. Ao escrever uma obra, o autor imprime nesta as pegadas das leituras de toda a sua vida. A tal fato, no entanto, não pode ser atribuído qualquer nível de intencionalidade, pois as reservas de leitura aplicadas no momento da escrita localizam-se no inconsciente do escritor, ficando por fim, relegadas ao nível subjacente de uma “memória imemorial”, ou seja, os textos outrora lidos dialogam com o texto, ora escrito. Num exercício de construção e desconstrução, a memória posta em exercício dialoga com a memória latente – “a imemorial” – trazendo para a cena do texto perfis e sombras de leituras distintas pela releitura que se efetua através do ato criador.
O território de G.H. é o território do alheio
A Paixão Segundo G.H." conta a história de uma mulher de classe alta, que após ter-se desfeito de uma empregada, resolve arrumar o "minarete" em que esta vivia preparando-o para a empregada nova. Entretanto, ao entrar no quarto ora vazio, espanta-se duplamente, primeiro com a limpeza e aridez do ambiente, depois com o encontro com uma barata, que num ato de violência, ela mata esmagando-a. A partir deste acontecimento banal precipitam-se forças agônicas que levam a mulher a uma travessia de despersonalização. Num exercício aterrorizante de deseroização, a mulher vê o seu aconchegante apartamento de cobertura converter-se num estranho purgatório, no qual torna-se estrangeira, desterrada.O locus amoenus converte-se em locus horrendus.
A vontade de pôr ordem, arrumar e dar forma ao indefinido impulsiona G.H. em direção ao quarto de Janair , sua ex-empregada. Antes de alcançar ao minarente era necessário atravessar o corredor escuro que ligava uma área da casa à outra. a imagem do corredor escuro pode ser comparada a de um cordão umbilical que liga o resto do apartamento ao desconcertante núcleo neutro da vida... a sensação é de travessia de um limiar, a partir dali a escultora estaria desligada de seu mundo de prata e beleza e colocaria os pés num outro mundo àrido, inesgotável e infernal:
Abri a prota para o amontoado de jornais e para a escuridão da sujeira e dos guardados. Mas ao abrir a porta meus olhos se franziram em reverberação e desagrado físico
Esta é a primeira surpresa de G.H. A decepção por não encontrar forma alguma a dar ao minarete, pois como ela mesma acentua, a empregada, com ousadia de proprietária já o fizera. Surge então a impressão de que fora atraída para uma armadilha. O quarto é um quadrilátero seco, oco e estéril, nele Janair inscreve a sua patroa em um mural cravado à carvão. Neste momento há uma tentativa de descoberta da estranha Janair, mulher de traços de rainha. Entretanto, ainda estava por vir a mais aterradora e desconcertante surpresa: a barata. De repente, daquele útero seco, emerge uma vida ancestral. A partir deste confronto inicia-se um travessia contundente, na qual G.H. paulatinamente desindividualiza-se sendo dominada por uma sensação de desterramento. A escultora é exilada de seu mundo atirada num mundo de identidade pura, de puras entranhas:
Não fora eu quem repelira o quarto... o quarto com sua barata secreta é que me repelira
O Estranho Estrangeiro
O Estranho segundo Sigmund Freud é " aquela categoria do assustador mas que remete ao que é conhecido, de velho e há muito familiar". Assim, o estranho seria caracterizado pelo retorno do recalcado. Levando em conta estas definições, detectamos um diálogo franco entre "A Paixão Segundo G.H." e " A Quinta História" , um conto de Clarice.
No referido conto, a autora dá a receita de como matar baratas. Num esforço concentrado, meticulosamente Clarice suscita a Scherazade das mil e uma noites dando uma infinidade obsecada a sua agonia. A mesma agonia que guiou a mão "salvadora" de G.H. a esmagar a barata com a porta do guarda-roupas. Ambas foram acometidas pelo desejo de se livrar do recôndito inimigo. Em ambas as histórias o que se encontra é um sentimento de desconcerto, um estranhamento, uma traição:
Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha (AQH)
De encontro ao rosto que eu pusera dentro da abertura, bem próxima de meus olhos, na meia escuridão, movera-se a barata grossa (APSGH)
A presença da barata traz uma sensação de descortínio e revelação de uma identidade alheia, pois até então ela é a estrangeira no mundo humano de G.H. A descoberta de sua antigüidade traz o espanto: na verdade a intrusa é a escultora pois a barata é ainda anterior à vida humana:
Uma barata tão velha que era imemorial. O que sempre me repugnara nas baratas é que elas eram obsoletas e no entanto atuais. Saber que elas já estavam na terra, iguais a hoje...saber que o primeiro homem surgido já as havia encontrado proliferadas.
De repente a mulher e o animal encontram-se num embate. A revelação de que o elemento estrangeiro está imanente a ela é aterradora, além de só se ter revelado por ter-lhe despertado uma alteridade perturbadora. A rejeição se dá pelo temor da inevitável despersonalização.
A consciência a que G.H. chega por fim é que o estranho está em nela estando imanente a seu ser, e tal conclusão abarca uma conseqüência assustadora:somos todos estrangeiros.
A consciência da insuficiência da palavra e do gesto findam a sua travessia avessa. O mundo descobre, desvela e a atira G.H. num nível fronteiriço: a visão freudiana do estranho é ampliada desaguando no indelimitado estrangeiro.
A Máscara e o Espelho
O mistério da máscara e do espelho está na sua dupla reflexibilidade, no seu infinito jogo de mostrar e esconder. Um mostra apenas o exterior ocultando o interior, outro, esconde a cara evidente e revela a alma. Tais imagens são, portanto, bastante condizentes com o diálogo textual que gostaria de abordar neste momento:
A alegoria da máscara retrata a metamorfose de Gregor Samsa. A imaginação fantástica de Franz Kafka traz o homem inadaptado ao mundo circundante e cerceante que numa dada manhã acorda metamorfoseado num animal grotesco, asqueroso:
Quando certa manha Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso
Revestido de uma couraça animalesca, Gregor é aprisionado no quarto, exilado de/por sua família, agredido e incompreendido. A saga do homem moderno culmina num certo dia em que a faxineira recolhe os seus restos, sobrou-lhe apenas as cascas, antenas e a maçã da intolerância pegada nas costas.
A maçã grudada em sua costas e a região inflamada em volta, inteiramente cobertas por uma poeira mole, quase não o incomodavam. Recordava-se da família com emoção e amor...ele ainda vivenciou o início do clarear geral do dia lá do lado de fora da janela. Depois sem intervenção de sua vontade, a cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco o último fôlego.
O espelho é uma alegoria para a experiência de G.H. É necessário trazer uma explicação quanto a esta imagem: houve sem dúvida uma experiência narcísica, entretanto não foi a sua imagem de beleza intocada que ela viu nos olhos da barata.
Indo muito além disto a personagem adentrou no desconhecido, num mundo de náusea e de fracassos no qual a falha da linguagem era instrumento da mudez, da construção falida surge o indizível. Aqui a provação tem um duplo sentido há uma união sacrílega com o que é mal. O instante de provação é também provar do neutro da vida que é branco e fofo:
Provação. Agora entendo o que é provação. Provação: significa que a vida está me provando. Mas provação: significa que também estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável.
A sugerida metamorfose interior sofrida por G.H. é uma marca da inadaptção do ser à convivência com o outro. A couraça animalesca que assusta, agride e repele nada mais é que a revelação da incorrespondência do ser humano com o mundo. A diferença óbvia da couraça animalesca expõe a sua vulnerabilidade.
A Imagem: simulacro do ser
Toda imagem aproxima ou conjuga realidades opostas.
Esta frase de Octávio Paz é o ponto de partida para este estudo que deseja debruçar-se sobre as alegorias do estranho. O poder da imagem alegórica de dizer do outro é explorado com primazia por Clarice. A autora desfaz e refaz, cria e recria realidades fazendo com que os elementos contrários se harmonizem e os harmônicos se desequilibrem. A metáfora, a metonímia, o paradoxo e o oxímoro são constantes no seu labor criativo. Num jogo de esconder e mostrar, a palavra condensa, sob o caleidoscópio do símbolo, a realidade plural.
A imagem resulta escandalosa porque desafia o princípio da contradição: o pesado é ligeiro. Ao anunciar a identidade dos contrários, atenta contra os fundamentos do nosso pensar.
Em "A Paixão Segundo G.H." percebe-se uma manufatura da linguagem onde apenas o desequilíbrio é capaz de equiparar os pratos da balança e todo este processo se dá a partir da escrita autodilacerante de Clarice Lispector, onde construir-se é necessáriamente desconstruir-se num exercício dramático de afirmação e negação de si mesmo, em que a essência é a negação, e a esperança, a afirmação da incompletude.
Referências Bibliográficas:
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